UFG passa a integrar colaboração internacional de astrofísica H.E.S.S.
Instituição terá acesso a dados inéditos sobre os fenômenos mais extremos do Universo e amplia oportunidades de pesquisa e formação na área
A Universidade Federal de Goiás (UFG) passou a integrar oficialmente a Colaboração Internacional H.E.S.S., iniciativa de referência mundial na pesquisa em astrofísica de partículas e astronomia de raios gama. A conquista amplia a inserção internacional da instituição, garante acesso a um amplo conjunto de dados sobre alguns dos fenômenos mais extremos do universo e abre novas possibilidades de pesquisa e formação para a comunidade acadêmica.
Para entender a importância da adesão da UFG, as perspectivas para estudantes e pesquisadores e o papel da colaboração na produção científica da área, conversamos com o professor Prof. Victor Barbosa Martins, do Instituto de Física (IF/UFG), responsável pela aproximação da Universidade com o grupo. Confira a entrevista na íntegra.
O que representa para a UFG ser aceita como membro oficial da Colaboração Internacional H.E.S.S.?
Representa a inserção da UFG em uma colaboração extremamente bem-sucedida, que há mais de 20 anos coleta dados na fronteira do conhecimento em astronomia de raios gama. Isso nos permite utilizar dados de ponta para conduzir nossa própria ciência e colaborar diretamente com os maiores especialistas da área no mundo.
O que é o H.E.S.S. e qual é sua importância para a astronomia e a astrofísica de partículas no mundo?
O H.E.S.S. é um experimento de telescópios Cherenkov, que utiliza técnicas de detecção indireta de chuveiros atmosféricos — cascatas de partículas que se desenvolvem quando um raio gama atinge a atmosfera da Terra. Mesmo com o desenvolvimento de novas gerações de instrumentos, o H.E.S.S. continua coletando dados fundamentais e publicando artigos de altíssimo impacto científico após duas décadas de operação.
Quais fenômenos do universo podem ser estudados a partir dos dados do H.E.S.S.?
Os dados permitem o estudo dos ambientes mais exóticos e extremos do universo, na nossa galáxia e em outras. Isso inclui explosões de raios gama, supernovas (explosões de estrelas), microquasares (sistemas binários onde um buraco negro acreta matéria de uma estrela companheira) e radiogaláxias (galáxias com núcleos ativos que emitem jatos proeminentes e jatos de partículas em larga escala). Nesses ambientes, incluindo regiões muito próximas a buracos negros supermassivos, ocorre a geração de jatos de partículas. As partículas são aceleradas a energias imensas, impossíveis de serem reproduzidas em laboratórios na Terra. Essa observação de aceleradores naturais é o que diferencia a astrofísica de partículas da física de partículas tradicional.
O que muda, na prática, para o grupo Astrogyn e para os demais pesquisadores da UFG com o acesso aos dados exclusivos da colaboração?
Na prática, o grupo torna-se significativamente mais atrativo. Alunos e pesquisadores passam a ter contato direto com os principais especialistas internacionais para discussões e trabalhos em conjunto. Além disso, ganhamos acesso não apenas aos dados atuais, mas a um vasto acervo acumulado em mais de 20 anos de observações, que ainda possui muito material a ser explorado para novas pesquisas.
Quais oportunidades esse ingresso pode abrir para estudantes de graduação e pós-graduação da UFG?
As oportunidades são voltadas principalmente para a pós-graduação, pois o trabalho científico dentro de uma colaboração desse porte demanda bastante tempo. Os alunos de pós-graduação poderão liderar análises de dados (chamadas de tarefas dentro da colaboração), apresentar resultados nos encontros da equipe internacional e viajar para participar presencialmente dessas reuniões de colaboração.
Como sua trajetória no H.E.S.S., durante o doutorado e o pós-doutorado, contribuiu para a aproximação da UFG com a colaboração?
Minha trajetória começou em 2018, durante o doutorado realizado na Alemanha, no DESY e na Humboldt University. Foi a partir desse momento que ingressei na colaboração e estabeleci contato com os especialistas da área. Ingressei na UFG apenas no ano passado como professor, após realizar boa parte da minha carreira no exterior. Portanto, a aproximação da UFG com o H.E.S.S. é o resultado direto da transferência dessa minha experiência e da rede de colaborações internacionais que trago para a universidade.
De que forma a participação da Universidade fortalece a internacionalização e a presença da pesquisa brasileira em áreas científicas de fronteira?
Historicamente, o Brasil já possui uma conexão forte com a astrofísica de partículas, mas essa atuação é muito concentrada no eixo Rio-São Paulo. Com o estabelecimento deste grupo de pesquisa na UFG, criamos o que deve ser o primeiro ou único grupo de astrofísica de partículas no Centro-Oeste. Entrar em uma colaboração internacional de ponta logo no nosso segundo ano de atuação é muito vantajoso para a UFG, pois descentraliza a pesquisa e nos permite fazer ciência de ponta diretamente em Goiânia, utilizando dados de alto nível.
Quais são os próximos passos da UFG dentro da colaboração e quais resultados a comunidade universitária pode esperar dessa parceria nos próximos anos?
O próximo passo é encontrar alunos interessados em participar do grupo, que queiram seguir na área e que tenham tempo para se dedicar ao desenvolvimento de um projeto dentro do H.E.S.S., o que exige bastante dedicação. Esses alunos terão acesso aos dados e poderão liderar tarefas, participar dos encontros da colaboração (que acontecem duas vezes ao ano) e apresentar resultados em conferências em nome da colaboração. Trata-se de um processo longo, mas que compensa cientificamente.
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Fonte: PRPG UFG
